O Jovem e a Violência

Por Áurea Brasil – Psicóloga, CRP 05/14418

ViolênciaPor que são violentos?

É a pergunta que não se cala a cada nova página virada do jornal ou a cada intervalo comercial.

Quais são as causas da violência entre e praticada por jovens?

Talvez outra pergunta que nos assalta (ops…), volta e meia.

É necessário ir um pouco mais além, antes de tentar achar respostas.

O que é violência e como ela se propaga? Ou como prefiro pensar, onde e como se “cultiva” violência, – compartilhando com Goldberg, como ideia de cultivo da violência em seu livro “Cultura da Agressividade”, quando assinala que “a agressividade… tratada em sua rede de interligações com as realidades humanas que estão em íntima associação com o fato psicológico…o modo como a humanidade se situa no mundo e age sobre ele”, entendendo assim a cultura como o “modo de cultivar o mundo”.

De acordo com o dicionário o verbete violência significa: qualidade do que é violento; abuso da força; tirania; opressão; veemência; ação violenta; coação física ou moral.

E o que se viola?

Violam-se regras, conceitos, normas, leis, opiniões, corpo, enfim a tudo que se impõe como limite.

Então, pode-se dizer que violar/violência também parece estar diretamente relacionado com a questão dos limites. Do lidar com os limites, exercê-lo e aceitá-lo.

É da natureza do ser humano o violar/violência, não aceitando os limites do dado, com suas tendências de controle e domínio sobre o externo, a fim de manter sua sobrevivência e ampliar seus domínios e recursos desde priscas eras, utilizando para isto suas estruturas intelectuais e afetivas. Seria o aspecto do violar usando a noção da agressividade inerente a toda ação, o que impulsiona a agir em direção a algo.

A violência como ato de violar é ato corriqueiro na sociedade, porquanto tem sido frequente e crescente a dificuldade de estabelecimento dos limites entre indivíduo e sociedade. Resultando no que poderíamos chamar de violação com prejuízos, ou como se fala comumente -a violência. Além disto, a relação do “ser no mundo” (agressividade construtiva: ir à busca de) está sendo substituída pela “ter o mundo” (agressividade violenta: possuir a qualquer custo), resultando em frustrações e insatisfações que formam a cultura/cultivo da violência (aqui entendida já como abuso da busca em direção a).

Por viver numa sociedade onde os valores estão voltados para aquisições de bens, voltado para o crescimento externo, ou com proposições a externalizar o objeto do bem-estar, gerando uma constante insatisfação/frustração, aliado a falta de objetivos e perspectiva de futuro, a violência entre e praticada pelos jovens têm-se mostrado frequente, crescente e preocupante.

Poderíamos tecer junto a isto as análises do porque os jovens são “vítimas/algozes” tão comuns, análise esta objeto de amplo estudo que não cabe neste artigo. Para isto, indicamos literatura especializada.

Entretanto, como isto não é prerrogativa dos jovens, interessa-nos observar a violência disseminada em todo o fato social.

Citei o conceito de cultivo, pensando no termo como uma ação contínua e intencional (embora nem sempre consciente), onde se semeia, alimenta-se e colhe-se os frutos.

E onde se cultiva a cultura da violência?

Em todos os espaços, no social, desde a casa (vide recente publicação sobre as “pitfamílias”, a violência aprendida, de acordo com o psiquiatra Jairo Werner, da Coordenadoria de Justiça Terapêutica do Ministério Público, Jornal da Família de quatro de abril de 2004), até nas relações de trabalho e no trânsito.

Presenciamos este fato nas várias faces do coletivo, e o que difere é o grau de violência, na expressão, pois o fato que engendra é o mesmo, desde o colega que agride o outro, pois que deste discorda, e não satisfaz assim seu desejo, até o “bandido” que agride quando sua “vítima” não o obedece, estamos lidando com as mesmas dificuldades: impossibilidades de lidar com insatisfações/frustrações; ausência de limites e mais profundamente uma incapacidade de lidar com as forças que habitam todos os seres, tais como a agressividade, os desejos, as paixões, que podem construir belas histórias ou grandes tragédias.

A falta de limites, a impossibilidade de lidar com frustrações, aliados a falta de objetivos e crença no futuro, e a falta de fé (diferente de religião institucional, fé que leve a uma religação, com o divino que há em si), acredito serem as principais causas de violência entre os humanos e os mais jovens, porque estes estão em um momento delicado de ascensão, mudanças, escolhas, trazendo uma estrutura mais sensível as pressões e outras formas de ameaça (vide literatura especializada).

Este estado de coisas que se retroalimentam na junção entre o social e o familiar é onde se cumpre fator de estreita co-responsabilidade. Mutuamente interferindo-se. É a na base formativa por ser a base da estrutura social, – a família, favorece para construção de valores para uma vida adulta saudável (termo que merece outro artigo !).

Primeiramente, o jovem de comportamento agressivo tornou-se assim no seio desta família, deste contexto. Sendo a família responsável pela formação do jovem, na sua estruturação, é ela também que pode auxiliar na compreensão e ajustes dos comportamentos sociais inadequados.

O auxílio da família exige desta uma reflexão da sua própria atuação como unidade que fornece os modelos a serem identificados, os afetos que estruturam um ser maduro, as estruturas enfim que favorecem o indivíduo a lidar com as insatisfações/satisfações, limites, objetivos, crenças, afetos.

Então só nesta atitude reflexiva, engendra outra linguagem de relação e outra possibilidade de lidar com o jovem e seu comportamento.

O que a sociedade pode fazer por si mesma? A violência está a todo o momento na mídia, na política, nos movimentos religiosos, na forma de responder, de reagir. Conter ou “dar conta” da violência dos jovens vai de encontro com as próprias iniciativas de “combate” das suas estruturas de violências. É também necessária uma profunda reflexão dos valores que permeiam que dão contornos, a esta sociedade, onde o ter a qualquer custo, onde o melhor ou o que tem mais sucesso é o valorizado, onde as relações de poder (aqui entendido como dominação) são as relações predominantes, baseadas na satisfação egóica que não vê limites que não pode ver-se finita.

Só diante desta reflexão, feita um a um e em todos, podemos estar no caminho de mútua tolerância e compreensão, de compaixão e perdão.

Buscar ajuda terapêutica é um apoio precioso. Um apoio terapêutico adequado vai lidar com o que há de violento do ser humano e ao mesmo tempo com o que há de violento na sociedade – a transformação de um é a transformação de outro.

Contamos com um trabalho que enfoca prioritariamente o autoconhecimento, que significa compreensão de limites e possibilidades, entendimento do poder como ação transformadora, como poder de ser (e não a vontade de poder). Como resultado do constante ato de conhecer-se, o crescimento em direção ao Ser inteiro, o equilíbrio dos afetos e amplitude do entendimento de valores e objetivos trazem ao indivíduo a transformação, meta principal do trabalho, trabalho este sempre insidioso, custoso, e por completar-se.

É nesta medida que o trabalho terapêutico proporciona ao indivíduo uma reflexão do “eu-Eu” e do” “eu-mundo”, possibilitando a transformação do “ególatra defendido”, para um sujeito capaz de estar no mundo de uma forma mais saudável, mais equilibrada. Saindo das posturas narcisistas destrutivas que engendram patologias individuais e sociais.

Desta forma, acreditamos que não proclamamos o fórum terapêutico como solução para os problemas, e nem patologizamos a violência, mas sim, busca-se uma reflexão profunda do que este mecanismo do humano tem como potência e como lidar com esta. Conduzindo a reflexão e não apenas as formas de contenção e suporte das danosas consequências.

Obs: O artigo pode ser divulgado livremente em outros meios de comunicação, sendo obrigatória a citação da fonte.

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